Re-food – uma alternativa ao desperdício de comida

Comida e Emoções
2 Dez, 2014

Hunter Halder

Hunter Halder

Ajudar o próximo é algo precioso e que reflete a compaixão que existe na essência de cada um. Ajudar o próximo transforma o sentido que damos à vida, tranzendo mais cor e harmonia aos nossos dias. Ajudar o próximo une-nos de uma maneira insubstituível e faz-nos realizar que a dor do outro é também nossa.

Hunter Halder é alguém que decidiu arregaçar as mangas e fazer a causa dos outros a sua causa. Após se ter dado conta que existe uma alternativa ao desperdício que acontece diariamente na restauração, ele decidiu colocar essa ideia em prática dando assim origem ao famoso Re-food.

Este projeto revolucionário consiste em recolher a comida que sobra nos restaurantes, supermercados, padarias, etc. e distribuí-la por aqueles que necessitam. O impacto que o Re-food tem tido nas comunidades em que se encontra é espantoso, assim como a história e atitude do seu fundador.

1. O QUE É QUE O LEVOU A INICIAR ESTE PROJETO?

Como tudo, este projeto surgiu num contexto próprio. Após ter perdido as minhas fontes de rendimento (obrigado crise!), eu fiz uma reflexão, não só sobre a possibilidade de iniciar uma outra carreira, mas também com o intuito de questionar a validade da minha contribuição global. E a verdade é que o levantamento desta reflexão não foi muito feliz . Embora sempre tenha ajudado o outro, apercebi-me de que sempre tinha desenvolvido projetos para mim, não para os outros. E, em 2010, tomei uma decisão radical: não trabalhar mais para mim, mas sim para os outros – para a humanidade. Ao longo desse ano – após meses de leitura, reflexão e algum jejum – elaborei cinco projetos humanitários (três ligados aos Olímpicos e Direitos Humanos e dois ligados à angariação de fundos, numa escala mundial, para todas as ONGs).

Entretanto, durante um jantar que estava a ter com as minhas filhas num restaurante, uma delas pergunta-me o que iria acontecer ao “buffet de saladas” no final da noite. “Vai para o lixo”, disse eu, ao que ela responde: “Que vergonha”. “Pois, filha, mas não é apenas a salada que vai para o lixo, mas sim todas as sobras de comida”. “Mais vergonha”, diz ela. “Sim, filha, e o tamanho desta vergonha não é pequena, porque não é apenas este restaurante que o deita comida fora, mas todos os restaurantes em Lisboa e do mundo”. “Que grande vergonha, pai!”. Eu defendi as pessoas da área da restauração, explicando que eles não sabiam a quem dar a comida restante e que, no final da noite, estão cansadas e têm que ir para casa.

Poucas semanas mais tarde, a minha filha começou a trabalhar, numa equipa de catering de banquetes, num hotel. Logo na sua primeira noite, assistiu ao desperdício de travessas e travessas de comida boa e cara. Lembro-me que regressou a casa “pronta a partir louça”! Eu tentei acalmá-la, mais uma vez, dizendo que o pessoal do hotel não tinha culpa, pois eles não tinham alternativa. E, assim que a palavra “alternativa” sai da minha boa, uma luz rebenta na minha cabeça e me faz questionar: “se houvesse uma alternativa, qual seria?”.

Escrevi o esboço do Projeto Re-food nessa mesma noite, sem dormir! Senti a responsabilidade de atuar logo que recebi a ideia (ninguém sabe verdadeiramente de onde vêm as ideias!).

2. QUAL FOI O PRIMEIRO PASSO QUE TOMOU NESSA DIREÇÃO?

O primeiro passo foi: a decisão fundamental de trabalhar em prol dos outros; o segundo passo: a decisão de priorizar o Projeto Re-food sobre os outros projetos idealizados; o terceiro passo: a decisão de trabalhar a nível “micro local”, no meu próprio bairro (Nossa Senhora de Fátima, no centro da Lisboa); o quarto passo consistiu em “passos físicos”: abrir a página Facebook, entre outros. Após ter feito uma investigação de fontes de alimentos na freguesia Nossa Senhora de Fátima, encontrei 285 potencial fontes/parceiros. Falei com o Carlos, que é o dono de pastelaria em frente da minha casa, depois falei com o prior Luís Alberto para abordá-lo sobre uma possível parceira e por aí em diante.

3. SENTIU ALGUM TIPO DE RESISTÊNCIA POR PARTE DAS ENTIDADES OFICIAIS?

Não. Senti só aquela resistência normal que vem com qualquer tipo de mudança. A resistência que eu estava à espera (pela política/governo, instituições da restauração e pela ASAE), não materializou – devido do trabalho de cidadania do António Costa Pereira, que confrontou o status quo com uma petição online contra desperdício alimentar (67.000 assinaturas). Ele mudou o paradigma e abriu o caminho – a luta que eu estava à espera não aconteceu por causa do trabalho dele. Eu só soube do trabalho dele em Janeiro de 2010, depois de decidir a avançar com o Re-food (não vejo televisão e nem leio jornais).

4. EM GERAL, OS RESTAURANTES MOSTRARAM-SE LOGO INTERESSADOS?

Sim. Tive uma resposta positiva, dos 2/3 das 45 entidades identificadas e convidadas, nos sete quarteirões entre a minha casa e a igreja de Nossa Senhora de Fátima. Poucos recusaram, mas vários simplesmente não foram capazes de dizer “sim” ou “não” – porque o centro de decisão não estava no local (refeitórios, supermercados, instituições, etc.). Ninguém quer deitar boa comida no lixo quando sabem que alguém tem fome.

5. QUAL O IMPACTO QUE ESTE MOVIMENTO TEM TIDO NAS COMUNIDADES MAIS NECESSITADAS?

O impacto é significativo. Muitos dos beneficiários com quem trabalhamos tiveram que decidir entre pagar a conta da luz ou comprar comida. Estamos a conseguir resgatar cerca de 24.000 refeições por mês e alimentar mais de mil pessoas. Para quem tem fome, comida boa é muita importante.

Os restaurantes (e outras fontes) também sentem um impacto físico – não terem que deitar fora comida que se encontra em perfeitas condições – e psicológico – devido ao sentimento de não estarem a desperdiçar comida e terem a oportunidade de ajudarem outras pessoas. E até desconfio que os maiores beneficiários do Re-food são os voluntários. Ao providenciar uma oportunidade de ajudar pessoas na nossa comunidade é uma coisa muita poderosa. Ajudar o próximo muda a nossa própria realidade em maneiras muito concretas, embora difíceis de descrever. É muito bom ajudar o outro e o Re-food cria esta possibilidade para milhares e milhares de voluntários. Vem e coloca as mãos na massa (literalmente) e vais poder ver por ti próprio!

6. QUAL O PAPAEL DOS VOLUNTÁRIOS NESTE PROJETO?

Os voluntários são o sangue da vida do projecto Re-food. Somos 100% voluntários (no Re-food ninguém é remunerado), o que significa que todos estão lá por boa vontade. O nosso ambiente é de alegria e o nosso trabalho muito produtivo – cada voluntário, tem o seu turno, de 2 horas 1x/semana, em que alimenta cerca de 10 pessoas. Nada nem ninguém é mais importante do que os voluntários – tanto os que estão no terreno como os que se encontram a entregar a comida ou a trabalhar na administração.

7. DE QUE MANEIRA AS PESSOAS PODEM CONTRIBUIR PARA ESTA INICIATIVA?

Cada um na medida possível. O nosso convite é para toda a comunidade. Todos os cidadãos estão convidados a participar, 2 horas uma vez por semana, assim como instituições públicas e privadas e também empresas. As pessoas em comunidades onde ainda não há uma equipa formada podem tomar a iniciativa e mudar a sua própria comunidade – podem ser os Pioneiros Re-food na sua cidade ou freguesia. As pessoas que dizem, “Gostaria fazer voluntário, mas não tenho tempo”, podem reavaliar este constrangimento – são 2 horas uma vez por semana. As pessoas que podem influenciar outras pessoas podem dar relevo ao projeto – não muito tempo atrás, o David Carreira visitou e colocou as suas mãos na massa connosco e muitas outras pessoas foram alertadas por causa da ação dele. Pode até haver pessoas que escrevem blogs e podem optar para divulgar a oportunidade que o Re-food apresentar para os seu leitores : )

 

Podes obter mais informação sobre o Re-food, e sobre os programas de voluntariado, aqui.

 

Partilha esta entrevista aqui de modo a divulgar este projeto maravilhoso.

Francisca Guimarães

Francisca Guimarães

"No blog, partilho dicas que te vão ajudar a estar bonita, saudável, jovem e cheia de energia."

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