Commemorare: Como aprender a cozinhar com amor e intuição

Comida e Emoções, Receitas
10 Jun, 2015

“Cozinhar com amor é algo que fornece alimento à alma”

Anónimo

A verdadeira arte de cozinhar tem vindo a desvanecer-se. O frenesim constante que caracteriza o nosso dia-a-dia acabou por tornar o ato de preparar alimentos numa mera necessidade que é preciso satisfazer, ignorando a energia que existe num prato de comida quando este é preparado pelas mãos do coração.

Precisamos aprender a sentir os alimentos e a energia que eles nos transmitem, distinguindo os que nos prejudicam dos que nos beneficiam.

Pegar nos alimentos, sentir a sua textura, o seu cheiro, o seu sabor e, a partir dos sentidos e imaginação, criar um prato de comida que nos irá nutrir, é uma arte que poucos conhecem. Seguir uma receita é algo útil e que pode ajudar aqueles que mais dificuldades encontram na hora de cozinhar, no entanto, é um ato racional. E se em vez de necessitarmos de utilizar receitas, criadas por outros, recorrêssemos à sabedoria do nosso próprio corpo, que sabe a todos os momentos quais os alimentos que irão elevar a nossa energia, refletindo-se na nossa saúde, beleza e bem-estar?

Aprender a cozinhar com “amor e intuição” e a servir o nosso corpo com os alimentos que ele realmente nos pede é a sabedoria que a Isabel Gonçalves, autora do blog Commemorare, partilha connosco através dos seus famosos workshops. A partir do seu dom para a cozinha e de um vasto conhecimento sobre alimentação energética, nós conseguimos aprender, de um modo misteriosamente mágico, como escutar o que o corpo nos pede, quais os alimentos mais indicados para cada um e como prepará-los de maneira simples, saborosa e com muito amor!

Lê a entrevista que fiz à Isabel e fica a conhecer um pouco da sua visão acerca da importância que a alimentação ocupa na nossa vida e algumas das suas dicas para uma alimentação mais saudável e consciente.

Isabel Gonçalves

Isabel Gonçalves

 

O QUE TE LEVOU A MUDAR A TUA ALIMENTAÇÃO?

O bicho carpinteiro. Apanhou-me disponível, deu-me conversa, e deixei-me convencer ao ponto de experimentar fazer um corte radical com os mais fortes vícios. Marquei uma consulta com o Francisco Varatojo, segui à risca as recomendações e, em menos de uma semana, deixei a mochila de medicamentos que sempre me acompanhavam.

A experiencia foi tão boa que não havia como duvidar. Ganhei tanta liberdade no meu corpo que em vez de pensar: ‘’não posso comer xpto (açúcar, por exemplo)’’ sentia vigorosamente a liberdade de viver tão bem sem ele.

QUAL A TUA FILOSOFIA EM RELAÇÃO À ALIMENTAÇÃO E ESTILO DE VIDA?

Hum… consciência: estar disponível para descobrir o que está por detrás do que nos dá prazer ou que nos causa sofrimento , o que nos dá energia ou apatia – física e emocionalmente. É algo dinâmico – que reconhece que há momentos em que preciso ser mais radical, outros momentos em que posso ter muita flexibilidade – e que a liberdade interior é, sempre, uma escolha.

Para mim é muito importante que tenhamos disponíveis as opções que verdadeiramente nos nutrem e, que se o que nos nutre é diferente do caminho comum, que essa escolha possa ser suportada, acessível, simples. Que as escolhas que nos dão prazer e saúde possam estar cada vez mais à mão, com qualidade e beleza – para que possam atrair e impactar.

Neste momento assumo o desafio de cozinhar sem lácteos, sem produtos animais, sem açúcar e sem glúten – numa prática que abraça as minhas aprendizagens na macrobiótica combinadas com prática e experiência com crudivorismo e cozinha vegetariana em geral. É uma proposta radical, em que os investimentos são muito elevados, e que não conheço igual em Portugal. É o meu voto/compromisso para que possamos de facto pedir ao mercado mais e mais possibilidades de escolha.

O QUE É QUE TE INSPIROU A FAZER WORKSHOPS?

Outros bichos carpinteiros que invariavelmente me pediam receitas e truques… Eu sempre criei no momento, com o que tinha disponível, improvisando. À volta da mesa as refeições eram acompanhadas de exercícios de memória e contabilização: ora… tinha um pouco disto e talvez um pedaço de aquilo. Acabava convidando as pessoas a virem cozinhar comigo, e os primeiros workshops foram ocorrendo em casa, com os amigos e os amigos dos amigos e os amigos dos amigos dos amigos, etc.

O salto para a bela cozinha da Bells & Springs ocorreu do encontro de visões sobre como optimizar o corpo, de dentro para fora, complementando valências e saberes – e do convite a dar energia a esta cozinha cheia de potencial.

Chamar as pessoas a virem ter comigo à cozinha e cozinharmos juntos, é partilhar a experiência, incentivar a que percam o medo de falhar, que arrisquem. Pessoalmente gosto de aprender fazendo, e acredito que despertando a paixão por colocar as mãos na massa é meio caminho andado para a autonomia de cada um.

Gosto de criar em conjunto, de fazer com que as receitas sejam de todos e que respondam às duvidas e necessidades de cada grupo.

O QUE PODEMOS APRENDER NOS TEUS WORKSHOPS?

Vou respondendo aos pedidos e necessidades de quem está perto e neste momento tenho dois formatos: fazermos uma refeição completa, da sopa à sobremesa, ou mergulharmos em temas mais específicos – como cereais, algas, sopas, etc.

NA TUA OPINIÃO, DE QUE MANEIRA É QUE A ALIMENTAÇÃO PODE TRANSFORMAR UMA PESSOA?

De todas as maneiras.

Individualmente: Porque o que comemos se transforma no nosso sangue, que impacta na forma e funcionamento de todo o nosso organismo – físico, emocional, mental, energético, …

Colectivamente: Porque a alimentação é, e acredito que sempre será, uma das atividades que mais nos aproxima ou distancia uns dos outros – como família, como tribo, como clã – e, para mim, este é o verdadeiro poder: o de estimular e fortificar relações. Quando pessoalmente assumimos escolhas que são diferentes, seja por motivos de saúde ou por valores pessoais, é importante que possamos nos sentir acolhidos e acompanhados por quem estimamos, é importante que acolhamos e respeitemos as escolhas de cada um.

E sobretudo, porque cozinhar é um gesto de amor: como fazer amor. E deixo-vos o “manifesto da cozinha’’:

cozinhar como um gesto de amor: como fazer amor.
cozinhar como uma declaração de intenção: como criar relação entre alimento e alento.

cozinhar como um acto alquímico: como um procedimento mágico de gerar prazer e saúde.

porque quando comes, quando escolhes com o que te alimentas, escolhes como criar o teu sangue, como dar forma ao teu corpo, como alimentar as tuas células, como nutrir todos os teus sentidos.

porque quando dás ao teu corpo substâncias que ele reconhece como comida, verdadeira comida, ele agradece e retribui.

porque quando lhe dás verdadeira comida, isenta de mil complexidades químicas, aumentas a sensibilidade e capacidade de reconhecer os sinais e a linguagem com que o teu corpo comunica. e essa – a sabedoria da escuta do corpo – é um dos maiores tesouros que nesta vida podemos recordar.

comer, como respirar, é um dos actos mais íntimos.

de quê que te queres rechear?! 😉

TRÊS DICAS QUE POSSAMOS COMEÇAR A IMPLEMENTAR HOJE EM DIREÇÃO A UMA ALIMENTAÇÃO MAIS SAUDÁVEL?

Descobre o que realmente andas a comer. Quantos ingredientes indecifráveis, ilegíveis, codificados andas a oferecer ao teu corpo?
Escolhe comida verdadeira: uma cenoura em vez de um aglomerado sintetizado de casca de cenoura com extrato de cenoura e adição de vitamina c e corante laranja e estabilizante e suavizante e laxante e redutor de silhueta e esticador de pestanas…

Compromete-te com uma prática que para ti seja acessível. Não traumatizes uma mudança começando com algo muito complexo ou que te saiba mal. Escolhe um sumo ou uma sopa ou um super alimento que te estimule a um objectivo específico (aumento de energia, perca de peso, …) e usa-o como trampolim para esse compromisso inicial.

Cria cúmplices. Estimula amigos, família, colegas e torna a tua mudança parte de um projeto colectivo. Faz por criar relação com a loja de produtos/a banca do mercado em que fazes as tuas compras, conhece um pouco da história por detrás do que estás a comprar. Conta a tua experiência – da mesma forma como foste cativado, podes cativar. Juntos vamos mais longe.

ONDE É QUE TE PODEMOS ENCONTRAR?

Na linda cozinha da Bells & Springs, no Largo de Santos, em Lisboa; na minha página do Facebook e no meu blog Commemorare.

 

 

Partilha aqui esta entrevista com alguém que gostasse de aprender a cozinhar com o coração.

Francisca Guimarães

Francisca Guimarães

"No blog, partilho dicas que te vão ajudar a estar bonita, saudável, jovem e cheia de energia."

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