6 coisas que (re)aprendi neste retiro

Corpo e Alma, Viagens
20 Jun, 2014

Para mim, um retiro é uma oportunidade de nos distanciarmos/retirarmos dos afazeres do nosso dia-a-dia e passarmos algum tempo com nós próprias. É como carregar no botão “pausa”, sair durante uns momentos, regressar e voltar a pressionar no “play”. No entanto, o que acontece entre o início e o fim desse retiro é algo único e que, sem dúvida, pode mudar o curso dos nossos dias.

Já fiz vários retiros e o que me levou a repetir foi o facto de que, nestes últimos meses, algo me pedia para eu parar e retirar, nem que fosse apenas durante uns dias. O ritmo em que me encontrava estava a tornar-se demasiado acelerado e o meu corpo não se encontrava muito satisfeito com esse cenário. Uma vez que eu acredito fielmente em que a sabedoria do meu corpo é muito superior à da minha mente, eu tento sempre escutá-lo e respeitar o que me pede. E assim sendo, decidi fazer um retiro de modo a parar, cuidar de mim mesma e recarregar baterias.

Para se fazer um retiro, não é necessário ir para nenhum lugar físico em concreto. Podes fazê-lo até em tua casa, como muitas vezes já fiz. No entanto, a minha experiência diz-me que distanciarmo-nos por completo da nossa rotina e irmos para um lugar em que mais pessoas também o estejam a fazer, ajuda imenso nessa “retirada”. Desta vez escolhi ir para um centro budista, no norte da europa. Eu não sigo – nem nunca segui – nenhuma religião, mas a filosofia em que se baseia o budismo sempre me fascinou e sinto que os seus ensinamentos ressoam com a pessoa que sou e naquilo em que acredito.

De acordo com a minha experiência em relação a retiros e viagens, existe sempre um “antes” e um “depois”. Cada experiência vivida naquele espaço de tempo vai transformar e afetar a pessoa que eu era antes de ter saído de casa. As pessoas que conheço, os momentos mágicos que acontecem, os ensinamentos que recebo e o tempo que passo em silêncio comigo mesma fazem com que eu regresse com uma atitude diferente – mas sei que isto apenas acontece se eu abrir o meu coração e me deixar transformar. É difícil pôr em palavras aspetos tão subtis, mas de modo a partilhar um pouco deste meu último retiro, aqui ficam as coisas mais importantes que sinto ter (re)aprendido – acredito que nós já temos toda esta sabedoria dentro de nós.

1# A IMPORTÂNCIA DE PARAR

Vivemos numa era muito frenética em que nos exige mais do que aquilo que conseguimos dar. Como costumo dizer, parecemos pequeninos hamsters numa roda sempre ocupados a correr de uma lado para o outro, contabilizando tudo o que fazemos pois, ainda por cima, somos julgados se não o fizermos. Desde o momento em que despertamos até que nos voltamos a deitar, a lista de afazeres é longa e o tempo para saborearmos o momento presente parece ser cada vez mais curto. O problema torna-se ainda maior quando chegamos ao ponto em que já não sabemos estar sem fazer nada. Parece que existe uma resistência – e sentimento de culpa – em soltarmos a necessidade constante de “fazer” e, simplesmente, “ser”. Quando se está num retiro, treinamos esse lado – tão negligenciado – do “ser”. Não fazemos nada. Apenas somos.

2# QUEM REALMENTE SOMOS VAI MUITO MAIS ALÉM DO QUE QUALQUER “RÓTULO”

A sociedade em que vivemos encontra-se ainda muito apegada a títulos, estatutos, profissão, estado civil, classe social, entre tantos outros, esquecendo-se de se focar na essência – absolutamente idêntica – de cada ser humano. As pessoas identificam-se com estes rótulos acabando por criar padrões de comparação e, consequentemente, um distanciamento umas das outras e uma pressão que arrasta insegurança e sofrimento – “eu tenho que me casar”, “eu tenho que subir de estatuto”, “se eu tivesse mais dinheiro a minha vida seria muito melhor”, “o meu corpo é muito mais bonito/feio do que a minha colega”, etc. Quando um grupo de pessoas se junta em retiro, todos estes rótulos são deixados à porta. Ninguém sabe nada de ninguém. Somos apenas pessoas que nos reunimos de modo a trabalharmo-nos a nós próprios.

3# AS PESSOAS SÃO O BEM MAIS PRECIOSO QUE A VIDA TEM PARA OFERECER

Em geral, os momentos em que nos encontramos mais vulneráveis são os momentos em que o nosso coração mais se abre aos outros. Quando fazemos um retiro e nos encontramos em processo de reflexão sobre o caminho que estamos a percorrer, é normal que momentos fortes de vulnerabilidade aconteçam. Não é fácil olhar nos olhos dos nossos medos, defeitos, emoções reprimidas e padrões de comportamento que nos trazem sofrimento. E quando, finalmente, temos a coragem de o fazer, nem sempre é possível fazê-lo sozinhos. A dor e confusão podem-se tornar muito intensas e de modo a darmos o seguinte passo – em direção à transformação – necessitamos de alguém que nos oriente e esteja ao nosso lado. E nesses momentos tão vulneráveis, quando alguém se aproxima e nos dá a mão, apercebemo-nos da ligação permanente que existe entre todos nós e do quão preciosa é a essência das relações humanas.

As pessoas fogem e receiam a vulnerabilidade, esquecendo-se que é quando nos encontramos nesse preciso lugar que conseguimos sentir a ligação, sempre tão presente, que existe entre todos nós.

4# A COMPAIXÃO É A ATITUDE QUE REALMENTE NOS UNE

É muito fácil julgarmo-nos a nós mesmos e às outras pessoas, não é? Se experimentares contabilizar o número de vezes que, num único dia, te criticas a ti e aos outros talvez vás ficar espantada! Existe um padrão mental crítico já tão enraizado dentro de nós que faz com que se torne difícil revertê-lo – é como que um vício que resiste em ir embora. Não nos traz paz nem felicidade, e até chega mesmo a criar uma separação entre nós e os outros, mas a verdade é que continuamos constantemente a fazê-lo.
Acredito que a maneira mais simples e suave de soltar esta voz tão crítica que existe em cada um, é através da compaixão – o simples ato de nos colocarmos no lugar da outra pessoa . “O que é que será que ela sente?”, “O que é que a está a levar a agir de determinada maneira?”, “Talvez esteja em sofrimento”,  “Possivelmente eu desconheço parte da história”, “Será que se eu estivesse no seu lugar e a sentir o que ela sente, me comportaria de maneira diferente?”. Estas são algumas perguntas que nos podemos colocar sempre que o “criticómetro” começa a disparar. A verdade é que não sabemos o que realmente se passa dentro de cada pessoa mas se, em vez de reagirmos, simplesmente pararmos e tentarmos sentir compaixão (não pena!), pelo menos emoções como a raiva, desilusão, tristeza, rancor, mágoa não nos irão corroer. Em vez disso, apenas sentiremos serenidade e compaixão. E lembra-te sempre que TODAS as pessoas desejam a mesma paz, felicidade e segurança que tu desejas. Estamos todos no mesmo barco ; )

5# NÃO LEVAR A VIDA TÃO A SÉRIO…É APENAS UMA HISTÓRIA

Levar a vida demasiado a sério é uma seca! Torna os nossos dias pesados, desgastantes e completamente sem piada. Para além disso, levar a vida a sério não é compatível com a alegria, paz e felicidade que desejamos. Isto porque, na minha opinião, a sensação de felicidade envolve leveza e desapego das histórias que a nossa mente nos conta sobre que deveria ou não estar a acontecer na nossa vida. Como se costuma dizer: “shit happens“! Tropeçar e espalhar-se ao comprido faz parte do jogo. Não há ninguém que esteja livre desses “tropeções” e, sim, acontecem e se ainda não te aconteceram, irão acontecer , simplesmente porque a vida acontece – com todas as coisas que a nossa mente considera “boas” e “más”.

O truque está em levantar, sacudir o pó, aprender a lição e seguir em frente. É apenas uma história – mais uma.

6# A MEDITAÇÃO É UMA FERRAMENTA MENTAL ESSENCIAL

Com a rotina imparável que descreve os dias que correm, torna-se muito fácil cairmos nas teias que a nossa mente cria. Ela encontra-se tão ativa e tão cheia de histórias que acaba por nunca cessar – eu costumo descrever a minha mente como um papagaio que não se cala! No entanto, esta é a natureza da mente – pensar. E não existe nenhum problema em ter uma mente cheia de pensamentos, o problema é quando começamos a acreditar em todos esses pensamentos e histórias, e nos deixamos levar por elas. Aí, sim, a sensação de sofrimento poderá surgir como consequência dessa identificação. O segredo não está em tentar parar a mente (é impossível!), mas sim em observar todas essas histórias mirabolantes e não agarrá-las – simplesmente observar. Isto é, baseado na minha interpretação, o que a meditação nos ensina. No entanto, esta ferramenta exige treino. É necessário uma disciplina diária de modo a conhecermos esta natureza da mente, como funciona e como podemos evitar que nos traga sofrimento e confusão. Se estiveres interessada em aprender mais sobre meditação, aqui ficam algumas sugestões:

Centro Buda Dharma (Lisboa)

União Budista do Porto

Headspace (uma aplicação de telefone fantástica)

Livro “How to meditate“, da Pema Chodron

 

 

 

Francisca Guimarães

Francisca Guimarães

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